Os Trinta Anos do CEF

Ivan Corrêa

Não há história sem proto-história. Para falar dos 30 anos do CEF, darei alguns breves tópicos de sua pré-história, certo de que, história ou pré-história, caem fatalmente sob o código poético de Carlos Drumond de Andrade:

“A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.

Assim, não era possível atingir toda verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil da meia verdade.

[...]

Chegou-se a discutir qual a verdade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar

Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia”.

Como J. Lacan diz que a verdade é “não-toda” e só pode ser “semi-dita”, passo a “semi-dizer” algo sobre nossa proto-história.

Retornando de Paris em Julho de 1971, assumi em agosto do mesmo ano, na UNICAP, a disciplina Teorias e Escolas Psicanalíticas. Tive então oportunidade de introduzir um autor e uma “Escola” que não constavam do programa, a saber, Jacques Lacan e sua Ecole Freudienne de Paris. Traduzi O Estádio do Espelho, e por aí começamos a “exegese” dos textos de Lacan, “soletrando” com os alunos, linha por linha, palavra por palavra.

Ao mesmo tempo recebia estagiários de Psicologia da UNICAP e da FAFIRE, na Fundação do Bem Estar do Menor (FEBEM), onde passei a exercer a função de psicólogo na unidade dos menores infratores, recolhidos então à Rua Fernandes Vieira. Nas reuniões com os estagiários estudávamos os textos de Françoise Dolto – O caso Dominique e Da Pediatria à Psicanálise – e de Maud Mannoni – A Criança sua Doença e os outros.

Posteriormente, em 1973, alguns desses estagiários organizaram um grupo de supervisão sob a orientação de Jacques Laberge que chegara a Recife em 1972. Foi a partir deste grupo que surgiu a idéia das conferências sobre Jacques Lacan, o que ocorreu em Dezembro de 1975 no Colégio Vera Cruz. Ao concluir estas conferências, Jacques Laberge convidou os interessados no estudo de J. Lacan para uma reunião. Esta reunião e outras subseqüentes tiveram lugar no Solar da Criança, escolinha fundada por Ana Izabel Corrêa, Cristina Rosa Borges, Lourdes Bernadete e Vânia Menezes.

Antes, porém, já acontecera, em 16/07/75, o encontro de Jacques Laberge com Durval Checcinato e Luiz Carlos Nogueira, em S. Paulo e a subseqüente fundação do CEF em 4/10/75.

Os pormenores destes e de outros eventos podem ser encontrados nos textos de Jacques Laberge e de Ana Izabel Corrêa, no número 4, Tomo I, da revista Céfiso, publicação do CEFR, e no artigo de Ivan Corrêa no livro organizado por Paulo Rosas – Memória da Psicologia em Pernambuco (Ed. Universitário UFPE, 2001).

Já que estamos comemorando o aniversário de uma fundação, portanto, de uma origem, faço agora alguns comentários sobre o que seria uma origem para a psicanálise.

Quando fui pela primeira vez ao Rio Grande do Sul para estudar filosofia, no Colégio Máximo de Cristo Rei, em São Leopoldo, logo nos primeiros dias, um colega me abordou com a seguinte pergunta: “Qual é tua origem, tche?”

Esta pergunta me surpreendeu de tal forma que nada pude responder, a não ser lhe devolver a pergunta: Que origem?

Até então eu acreditava piamente na monogênese do mito adamítico da origem da humanidade. O “não-sentido” para mim daquela pergunta, naquela ocasião, funcionou como um chiste. Um chiste da ordem do óbvio.

Seja como for, senti-me trespassado, atravessado pela questão da origem. Origem que me surgiu como impossível de representar. Como um não-sabido ancorado na minha identificação ao sintoma. Mas de que origem se trata? Não é isso que sempre buscamos e que se apresenta sempre como um Real?

Por que procuramos um dia uma análise, senão pra sabermos, no mínimo, a origem de nossos conflitos, de nossa angústia e até mesmo de onde viemos? Imaginariamente, não é este saber que nos cura? Recrudescência de nossa Wisstrieb infantil, querendo saber a misteriosa origem dos bebês?

A psicanálise reclama sua parte de representações da origem. Os qualificativos usuais de freudiano, lacaniano ou kleiniano são uma referência constante à representação de uma origem. A psicanálise não seria uma prática da origem do simbólico?

Em qualquer das hipóteses, não se chega sempre, numa transmissão regressiva a Freud, com sua invenção do Édipo, do Pai da Horda assassinado, da mesma forma que o Homem Moisés de origem indefinida: Egípcio, Etíope, ou Hebreu?

Todo analista, ao escutar um analisante, é convocado estruturalmente, ao lugar em que ele se tornou analista. E ao lugar em que seu analista se tornou analista... E assim, sucessivamente, de transmissão em transmissão, até o lugar onde Freud desejou (desejo de analista?) e escutou o desejo de “suas” histéricas. Seria esta origem simbólica que levaria um analisante a ter transferência para o movimento psicanalítico e se engajar na transmissão da psicanálise?

E onde estaria a “orto-doxia” que garantiria que se chegou e que se retorna desta origem simbólica, e não de outra, quiçá espúria? A busca desta origem é um mero operador que não livra o sujeito de se deparar com a angústia de castração. Sua organização em sintomas tem a ver com a ausência da representação da origem.

O que as histéricas dizem a Freud é que o “rapport” sexual não dá. E lhe apresentam o que sobra. Só sobram sintomas. E estes não soçobram. Flutuam. E presentes e vivos se inscrevem em seus corpos. Como uma Bildschrift, uma escrita figurativa, verdadeiros hieróglifos. Por isso somos levados a confundir o sintoma enigmático com o enigma da histeria.

Freud dizia que o sintoma histérico se forma como uma defesa contra uma representação incompatível (Unverträglich) ou insuportável (Unerträglich). Esta representação é tornada inofensiva pela “conversão”. O que é uma representação insuportável que só se pode suportar pela “conversão numa enervação somática”? E qual é esta representação?

Encontramos aí a interdição da representação. De uma representação original e originária. A interdição da representação nos conduz à origem do simbólico. É o modo pelo qual a Bíblia instaura o que Freud chamou o Recalque Originário/Primordial/Primevo, a Urverdrängung. Após a destruição do Bezerro de Ouro, Moisés transmite a proibição da representação de Yahvé: “Não farás deuses de metal fundido”. Esta interdição institui Deus como Recalque Originário. Agora o homem já pode ser um ser falante.

Esta origem do simbólico faz surgir a exigência do “UM”, do “mono”: “Eu sou o senhor teu Deus, e não há outro Deus”. Lacan diria “não há Outro do Outro. Não há significante último no inconsciente, para o qual todos os outros significantes sejam representados”.

Para Platão, contra Parmênides, se só existe o Um, nada pode ser nomeado. “O Um puro, que é verdadeiramente Uno, é incognoscível, isto é, uma unidade pura, cuja consequência é que nenhum nome lhe pertença”.  Por conseguinte, não somente não se pode nomear, mas nem sequer conhecer se pode.  É necessário que surja a negação do Uno. Esta negação vai funcionar como introdutora da diferença, da alteridade. Só assim haverá a possibilidade de nomeação.

Questão teológica, questão filosófica, questão para a psicanálise (“Y a d’l’un”), o UM é questão também para os lógicos. Frege pergunta se as unidades são iguais entre si. Se temos 1 + 1 + 1... Estes “uns” são iguais, são apenas um? Ou podemos diferenciá-los, pondo 1’ + 1” + 1”’... Necessitamos da igualdade, por isso o 1, o “mono”. Mas necessitamos também da diferença, por isso os índices.

Deveríamos então atribuir às unidades duas propriedades contraditórias: a igualdade e a distinguibilidade ou a discriminabilidade. Frege distingue então Einheit, como unidade unificante (o conjunto) e a Einzigkeit, isto é, a unidade distintiva, o 1 como número e, portanto, como objeto de investigação axiomática.

A partir daí podemos, talvez, abordar a questão do coletivo. O coletivo procede da lógica do Um (do monoteísmo), como traço ou marca singular, traço último, que se repetindo vai fazer diferença (Cf. Lacan no seminário da Identificação) e vai fazer tradição, vai criar uma raça: “qual é tua origem, tche?” Traço último e originário – Einzigerzug – que segundo Freud não é outro senão “a morte do Pai Primevo assassinado”, que vai definir o que poderíamos chamar o “laço social”.

Aí se encontra a origem do simbólico. A forma como Freud elabora o mito do assassinato do Pai da Horda, indica que as instituições humanas são fundadas sobre um assassinato. O que significa que o próprio simbólico tem sua origem no assassinato do Pai. O banquete totêmico, primeira festa comemorativa da humanidade, celebra este ato memorável e criminoso da fundação de uma associação fraterna, onde os irmãos se identificam ao poder do Pai, pela incorporação.

Desta mítica origem, além da organização social, surgem a culpabilidade, a consciência infeliz, a moral, a religião, o direito, a lei. E, evidentemente, a repetição. Esta invenção freudiana do mecanismo de repetição, pelo qual se rege o inconsciente.

Ao mito darwiniano, Freud lhe dá uma dimensão individual e não apenas coletiva, para tornar presente o que há de mais primitivo nas raízes do laço social e do inconsciente. Mito, no sentido em que ele descreve, sob uma forma metafórica, o que se produz em cada um de nós que entramos no reino da palavra.

A incorporação do Pai no banquete totêmico, seria uma forma do sujeito, pela identificação, dirigir-se a um lugar, o lugar do Outro, lugar originário onde ele pudesse viver e gozar. Identificação a um rastro que se apaga. O sujeito é aquele cuja marca do rastro se encontra apagada, deletada, erradicada.

Esta identificação primeira, a mais arcaica como postula Freud, inaugura a Topologia da origem, da origem como um sorvedouro que nos atrai e nos devora, mas que também nos faz ressurgir.

Aí se encontra a origem do simbólico. A forma como Freud elabora o mito do assassinato do Pai da Horda, indica que as instituições humanas são fundadas sobre um assassinato. O que significa que o próprio simbólico tem sua origem no assassinato do Pai. O banquete totêmico, primeira festa comemorativa da humanidade, celebra este ato memorável e criminoso da fundação de uma associação fraterna, onde os irmãos se identificam ao poder do Pai, pela incorporação.
Desta mítica origem, além da organização social, surgem a culpabilidade, a consciência infeliz, a moral, a religião, o direito, a lei. E, evidentemente, a repetição. Esta invenção freudiana do mecanismo de repetição, pelo qual se rege o inconsciente.

Ao mito darwiniano, Freud lhe dá uma dimensão individual e não apenas coletiva, para tornar presente o que há de mais primitivo nas raízes do laço social e do inconsciente. Mito, no sentido em que ele descreve, sob uma forma metafórica, o que se produz em cada um de nós que entramos no reino da palavra.

A incorporação do Pai no banquete totêmico, seria uma forma do sujeito, pela identificação, dirigir-se a um lugar, o lugar do Outro, lugar originário onde ele pudesse viver e gozar. Identificação a um rastro que se apaga. O sujeito é aquele cuja marca do rastro se encontra apagada, deletada, erradicada.

Esta identificação primeira, a mais arcaica como postula Freud, inaugura a Topologia da origem, da origem como um sorvedouro que nos atrai e nos devora, mas que também nos faz ressurgir.

Recife, 06/12/2005